Quando você ingressa no curso de Filosofia da UFRGS -e falo apenas dessa instituição, porque não sei com exatidão como funciona tal curso em nenhuma outra- toma um tapa. Se você é totalmente leigo no assunto: toma muitos. E se você teve "filosofia" no ensino médio e entrou porque gostou de como era: desiste no primeiro semestre.
Lá você não vai "divagar sobre o mundo" ou descobrir porque Nietzsche matou deus. Você nem vai ouvir falar de Nietzsche (e dê graças a deus por isso). O que vai acontecer, caso você não esteja a fim de licenciar no Ensino Médio da forma mais precária possível ou de envelhecer passando fome, pode ser resumido numa palavra (chula): ralar. Você rala. Você precisa estar disposto a ler o mesmo capítulo do mesmo livro por semestres, a tentar entender (sem sucesso nenhum, em quase todos os casos) porque 'x' é 'y' e porque aquele maldito grego usou essa palavra e não outra. Vai massacrar qualquer oportunidade de trabalho fixo porque as aulas (as aulas de fato, eu digo) são de dia. Vai dar um valor imenso a 360 reais (caso você tenha capacidade e sorte [mais a segunda que a primeira] para conseguir uma bolsa de pesquisa) e vai entender que ou você entra no mestrado ou vai morrer de fome igual, mesmo fazendo todas as outras coisas com perfeição.
Com tudo isso eu não quero dizer que o curso de filosofia é apenas para gente esforçada e chata. Não é. Mas você precisa entender como funciona e que você não deve esperar horas fumando maconha e olhando pro infinito. Nunca vi isso acontecer lá. Mas eu vi bastante gente sofrendo por dias tentando entender como funciona a linguagem lógica ou o que significa 'intuição pura a priori'. Na exata das humanas (como já vi pessoas chamando o curso) aprendemos a ter foco. Foco pra não desistir. Por muitas (e muitas) vezes é aborrecido e cansativo. E, talvez o pior de tudo, quase sempre inútil. Você não faz filosofia, estuda (a fundo) o que outros disseram. Não pratica, teoriza. E, pra encerrar com louvor, você pode terminar sua vida sem ter feito nada, mas pode escrever um artigo e mudar radicalmente os alicerces do pensamento ocidental. Todavia, uma coisa é certa: no segundo semestre você já vai ter se tornado uma das dez pessoas mais chatas da sua rua.
da filosofia
e nada além.
quarta-feira, 23 de março de 2011
da ética aristotélica
Pra começar: um dos meus trechos preferidos de um dos meus livros preferidos.
“Ora, cada qual julga bem as coisas que conhece, e dessas coisas é ele bom juiz. Assim, o homem que foi instruído a respeito de um assunto é bom juiz nesse assunto, e o homem que recebeu instrução sobre todas as coisas é bom juiz em geral. Por isso, um jovem é bom ouvinte em preleções sobre a ciência política. Com efeito, ele não tem experiência dos fatos da vida, e é em torno destes que giram as nossas discussões; além disso, como tende a seguir as suas paixões, tal estudo lhe será vão e improfícuo, pois o fim que se tem em vista não é conhecimento, mas a ação. E não faz diferença que seja jovem em anos ou no caráter; o defeito não depende da idade, mas do modo de viver e de seguir um após outro cada objetivo que lhe depara a paixão. A tais pessoas, como aos incontinentes, a ciência não traz proveito algum; mas aos que desejam e agem de acordo com um princípio racional o conhecimento desses assuntos fará grande vantagem.”
Ética Nicomaquéia (cap.3, livro I), Aristóteles.
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