quarta-feira, 23 de março de 2011

O curso de Filosofia da UFRGS

Quando você ingressa no curso de Filosofia da UFRGS -e falo apenas dessa instituição, porque não sei com exatidão como funciona tal curso em nenhuma outra- toma um tapa. Se você é totalmente leigo no assunto: toma muitos. E se você teve "filosofia" no ensino médio e entrou porque gostou de como era: desiste no primeiro semestre.
 Lá você não vai "divagar sobre o mundo" ou descobrir porque Nietzsche matou deus. Você nem vai ouvir falar de Nietzsche (e dê graças a deus por isso). O que vai acontecer, caso você não esteja a fim de licenciar no Ensino Médio da forma mais precária possível ou de envelhecer passando fome, pode ser resumido numa palavra (chula): ralar. Você rala. Você precisa estar disposto a ler o mesmo capítulo do mesmo livro por semestres, a tentar entender (sem sucesso nenhum, em quase todos os casos) porque 'x' é 'y' e porque aquele maldito grego usou essa palavra e não outra. Vai massacrar qualquer oportunidade de trabalho fixo porque as aulas (as aulas de fato, eu digo) são de dia. Vai dar um valor imenso a 360 reais (caso você tenha capacidade e sorte [mais a segunda que a primeira] para conseguir uma bolsa de pesquisa) e vai entender que ou você entra no mestrado ou vai morrer de fome igual, mesmo fazendo todas as outras coisas com perfeição.
Com tudo isso eu não quero dizer que o curso de filosofia é apenas para gente esforçada e chata. Não é. Mas você precisa entender como funciona e que você não deve esperar horas fumando maconha e olhando pro infinito. Nunca vi isso acontecer lá. Mas eu vi bastante gente sofrendo por dias tentando entender como funciona a linguagem lógica ou o que significa 'intuição pura a priori'. Na exata das humanas (como já vi pessoas chamando o curso) aprendemos a ter foco. Foco pra não desistir. Por muitas (e muitas) vezes é aborrecido e cansativo. E, talvez o pior de tudo, quase sempre inútil. Você não faz filosofia, estuda (a fundo) o que outros disseram. Não pratica, teoriza. E, pra encerrar com louvor, você pode terminar sua vida sem ter feito nada, mas pode escrever um artigo e mudar radicalmente os alicerces do pensamento ocidental. Todavia, uma coisa é certa: no segundo semestre você já vai ter se tornado uma das dez pessoas mais chatas da sua rua.

Um comentário:

  1. (risos em demasia).

    Nada se diferencia do curso da UFSC. A filosofia me matou, e se ainda não fez isto contigo, espere que um dia ela virá.

    estamos fadados a morrer de fome, bem verdade. Com filosofia não se come ou se compra livros, apenas se subexiste. É triste o nosso fim - por isto saí da profissão; não quero mais dar aulas no ensino médio.

    Falando nisso, não sei como foi a tua licenciatura, mas na minha indicaram-me um livro aprovado pelo MEC [grandes coisa, né?] dum autor que nem formado em filosofia é - professor de história; típico caso do ensino aqui em Santa Catarina.

    enfim... ótimo blog!

    ResponderExcluir